Pascal, plano Marshall, projeto Manhattan e o clima no Brasil 

11.07.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Pascal, plano Marshall, projeto Manhattan e o clima no Brasil 

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 06.05.2024 13:56 comentários
Análise

Pascal, plano Marshall, projeto Manhattan e o clima no Brasil 

Catástrofe no RS precisa fazer com que os governos deixem apenas de correr atrás dos prejuízos causados pelas mudanças climáticas

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 06.05.2024 13:56 comentários 0
Pascal, plano Marshall, projeto Manhattan e o clima no Brasil 
Foto: Ricardo Stuckert / PR

No século 17, o pensador francês Blaise Pascal propôs o seguinte raciocínio aos descrentes: “Pesemos o ganho e a perda na aposta que Deus existe. Avaliemos os dois casos. Se você ganhar, ganha tudo; se perder, não perde nada. Aposte, portanto, que ele existe, sem hesitar.” 

Diante das inundações sem precedentes no Rio Grande do Sul, que mataram 83 pessoas até esta segunda-feira, 6, e causaram prejuízos que ainda não se pode estimar, a necessidade de uma variação da “aposta de Pascal” para as questões do clima deveria estar clara.  

Ainda que as previsões sobre um apocalipse climático estejam erradas, não se perde nada em acreditar nelas, porque energia limpa e preservação ambiental não são incompatíveis com desenvolvimento econômico. Se as previsões estiverem corretas, mesmo que aproximadamente, pode-se perder tudo.  

Plano Marshall

Agir como se a pior hipótese for a correta significa criar mecanismos para prevenir as consequências dos desastres que já estão acontecendo e implementar mudanças para evitar que as catástrofes se tornem ainda mais graves.  

Depois do que se viu no Rio Grande do Sul, a conversa está muito tomada pela necessidade de reconstruir o estado. O governado Eduardo Leite pediu um “plano Marshal”, em referência aos investimentos que permitiram à Europa se reerguer depois da Segunda Guerra. 

Há boa vontade em Brasília, tanto no governo Lula quanto no Congresso. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) falou em se adotar um “orçamento de guerra”. O da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), disse que a resposta deve ser semelhante à que se viu na pandemia.  

Em abril, o Planalto já havia encaminhado aos parlamentares uma medida provisória prevendo a criação de um crédito extraordinário de R$ 369 milhões no Orçamento, para lidar com os efeitos do El Niño. É bem provável que esse valor seja aumentado.  

Prevenção de riscos

Tudo isso faz sentido. Mas caiu a ficha de que medidas visando ao futuro também precisam ser tomadas?  

Lula prometeu a adoção de um plano de prevenção de acidentes climáticos. “É preciso que a gente pare de correr atrás da desgraça”, disse.  

Talvez ele esteja pensando no Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil que, de fato, está sendo preparado desde o começo de 2023. No final de abril, a Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública sobre o tema.

Entre os “produtos” previstos estão o diagnóstico e a simulação de cenários de risco, bem como a criação de protocolos para prevenção, mitigação e resposta a emergências. 

Como se gasta o dinheiro

No entanto, uma reportagem da Folha de S. Paulo no começo deste ano mostrou que os gastos do governo federal em 2023 ainda estiveram quase que inteiramente voltados à recuperação de danos. Segundo o jornal, enquanto 1,1 bilhão de reais foram gastos para reparar desastres, apenas 36 milhões de reais serviram para evitá-los. A chamada “gestão de riscos” tem 1,9 bilhões de reais reservados no orçamento federal em 2024. 

No Rio Grande do Sul, o orçamento para gestão de riscos foi tema de polêmica neste ano. O governo de Eduardo Leite destinou 117 milhões de reais a essa rubrica, sendo a maior parte destinada ao reaparelhamento do Corpo de Bombeiros (cerca de 40 milhões). Uma fatia de aproximadamente 10 milhões de reais deve servir para a implantação de projetos e sistemas de gestão de riscos.  

No Congresso, tramita um projeto do senador Alessandro Vieira (MDB-ES) que pode liberar 800 milhões de reais por ano para o socorro a vítimas de catástrofes.  O dinheiro viria do Fundo Nacional de Mudanças Climáticas (FNMC), que neste ano conta com 13,6 bilhões de reais.  

Projeto Manhattan

 O FNMC é a principal ferramenta voltada a promover a transição energética e a preservação do meio ambiente no Brasil. Como observa o instituto Talanoa, que se dedica à questão do clima, o volume de dinheiro é significativo, levando em conta o histórico de gastos nessa área. 

Numa análise desse “orçamento climático” para 2024, porém, o instituto concluiu que “por ora, não existe uma conta oficial do quanto o país necessita para reduzir as emissões e alcançar suas metas climáticas, tampouco cálculos para cada setor”. Dessa maneaira, torna-se difícil saber se a dinheirama disponível é ou não adequada. 

Se um “plano Marshall” é necessário para os gaúchos, talvez seja hora de adotar um Projeto Manhattan para o clima no Brasil. Se você assistiu a Oppenheimer, o filme vencedor do Oscar, sabe do que estou falando.  

O Projeto Manhattan reuniu alguns dos físicos mais brilhantes do século XX e transformou suas equações em ciência aplicada. Em cinco anos de trabalho as duas primeiras bombas atômicas foram construídas. Lançadas sobre o Japão, encerraram a Segunda Guerra.  

O senso de urgência foi fundamental na empreitada. Os nazistas estavam longe de dominar a tecnologia atômica. Mas o governo americano e os cientistas recrutados não sabiam disso. Sentiam-se engajados numa corrida existencial. 

Suponho que alguns feitos extraordinários pudessem ser alcançados se o desafio do aquecimento global fosse encarado com o mesmo espírito. Com uma diferença crucial: não é preciso usar bombas no combate ao General Clima. 

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

“Lula está cuidando do Flávio igual um peru de Natal”, diz Caiado

“Lula está cuidando do Flávio igual um peru de Natal”, diz Caiado
2

CNJ suspende falência do Banco Santos

CNJ suspende falência do Banco Santos
3

A imparável Michelle Bolsonaro

A imparável Michelle Bolsonaro
4

Governo dos EUA libera vídeo de OVNI captado em 2025

Governo dos EUA libera vídeo de OVNI captado em 2025
5

EUA criticam decisão do Brasil de expulsar suposto espião russo

EUA criticam decisão do Brasil de expulsar suposto espião russo
6

“Assinei com muito orgulho”, diz presidente do TCU sobre penduricalho

“Assinei com muito orgulho”, diz presidente do TCU sobre penduricalho
7

A indireta de André Fernandes a Michelle em ato com Flávio

A indireta de André Fernandes a Michelle em ato com Flávio
8

Haddad diz ter ficado “perplexo” com declaração de Tarcísio sobre Tebet e Marina

Haddad diz ter ficado “perplexo” com declaração de Tarcísio sobre Tebet e Marina
9

CNJ afasta desembargadora por “deboche e excessos verbais” em sessão

CNJ afasta desembargadora por “deboche e excessos verbais” em sessão
10

Roberto Reis na Crusoé: O número de Lula que não se mexe

Roberto Reis na Crusoé: O número de Lula que não se mexe
1

"Assinei com muito orgulho", diz presidente do TCU sobre penduricalho

"Assinei com muito orgulho", diz presidente do TCU sobre penduricalho
2

“Lula está cuidando do Flávio igual um peru de Natal”, diz Caiado

“Lula está cuidando do Flávio igual um peru de Natal”, diz Caiado
3

Empresa de Dallagnol recebeu R$ 382 mil de fundo partidário

Empresa de Dallagnol recebeu R$ 382 mil de fundo partidário
4

EUA convidam Brasil para reunião sobre "terrorismo transnacional de esquerda"

EUA convidam Brasil para reunião sobre "terrorismo transnacional de esquerda"
5

Haddad diz ter ficado "perplexo" com declaração de Tarcísio sobre Tebet e Marina

Haddad diz ter ficado "perplexo" com declaração de Tarcísio sobre Tebet e Marina
6

Roberto Reis na Crusoé: O número de Lula que não se mexe

Roberto Reis na Crusoé: O número de Lula que não se mexe
7

Milei anuncia viagem ao Brasil para apoiar pré-candidatura de Flávio

Milei anuncia viagem ao Brasil para apoiar pré-candidatura de Flávio
8

Flávio promete microcrédito e vouchers para mulheres

Flávio promete microcrédito e vouchers para mulheres
9

A imparável Michelle Bolsonaro

A imparável Michelle Bolsonaro
10

Maristela Basso na Crusoé: A elegância perdida da política

Maristela Basso na Crusoé: A elegância perdida da política
1

Clarita Maia na Crusoé: Jogo de sinais trocados

Clarita Maia na Crusoé: Jogo de sinais trocados
2

Motta vê “indevida intervenção” em decisão de Dino sobre Valdemar

Motta vê “indevida intervenção” em decisão de Dino sobre Valdemar
3

6 receitas de carne assada suculenta para preparar no fim de semana

6 receitas de carne assada suculenta para preparar no fim de semana
4

Flávio lê carta de Bolsonaro: “O momento é de arregaçar as mangas”

Flávio lê carta de Bolsonaro: “O momento é de arregaçar as mangas”
5

Eduardo chama Dino de “comunista totalitário” após operação contra Valdemar

Eduardo chama Dino de “comunista totalitário” após operação contra Valdemar
6

Dia de São Bento: confira 6 orações para pedir proteção e fortalecer a fé

Dia de São Bento: confira 6 orações para pedir proteção e fortalecer a fé
7

Maristela Basso na Crusoé: A elegância perdida da política

Maristela Basso na Crusoé: A elegância perdida da política
8

Emendas atribuídas a Valdemar bancaram shows

Emendas atribuídas a Valdemar bancaram shows
9

Flávio Bolsonaro se vacina contra o PT

Flávio Bolsonaro se vacina contra o PT
10

The Umbrella Academy: 10 nomes para cachorro inspirados nos personagens 

The Umbrella Academy: 10 nomes para cachorro inspirados nos personagens 

Tags relacionadas

Alessandro Vieira Arthur Lira Defesa Civil desastres climáticos Fundo Nacional de Mudanças Climáticas (FNMC) inundações Luiz Inácio Lula da Silva mudança climática Rio Grande do Sul Rodrigo Pacheco
< Notícia Anterior

Quase metade das cidades chinesas corre risco de afundar

06.05.2024 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Crusoé: Durante crise ambiental no RS, Planalto escanteia Marina

06.05.2024 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.