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PL do aborto e a arte política de brincar com questões sensíveis

Temas incendiários, como o aborto, são tratados de maneira desrespeitosa e irresponsável pelos políticos

Madeleine Lacsko

A recente aprovação da urgência do PL 1904 pela Câmara, que tentava equiparar abortos após 22 semanas de gravidez a homicídios, trouxe à tona a velha estratégia dos políticos de usar temas sensíveis como termômetros para medir até onde podem ir. No final das contas, em vez de levar a plenário, o presidente da Câmara decidiu criar uma comissão para examinar o projeto de forma mais ponderada, a partir do segundo semestre.

Temas incendiários, como o aborto, são tratados de maneira desrespeitosa e irresponsável pelos políticos. Em vez de buscar soluções sérias, eles preferem criar um espetáculo para ganhar likes e apoio superficial. O problema é que a população, além de não exigir seriedade, muitas vezes premia esse circo. Se em temas tão sensíveis e sérios não se exige respeito, por que os políticos respeitariam questões como delações premiadas, dívidas dos partidos e impostos?

A gritaria em torno do PL 1904, com frases de efeito como “toda vida é uma vida” e “criança não é mãe”, só serviu para inflamar os ânimos e desviar o foco da real discussão. É uma discussão com argumentos que só convencem convertidos, não são capazes de fazer ninguém mudar de opinião e não promovem um debate sério e construtivo. 

Do lado progressista, tratou-se o aborto de forma banal, como se fosse uma simples ida ao shopping, com hashtags superficiais que nada contribuem para um entendimento profundo do tema. Teve até deputada se aliando a fandom de pop star fingindo que era pela causa.

No campo conservador, a proposta de equiparar aborto a homicídio foi vendida como uma solução para diminuir os abortos e salvar vidas, sem qualquer base jurídica sólida. Na prática, a qualidade jurídica do projeto era tão ruim que poderia, na verdade, aliviar penas de homicidas. A ideia de que a simples equiparação legal resolveria o problema do aborto é uma falácia, que apenas serviu para enganar aqueles que acreditam que se trata de assassinato de bebês.

A questão é que, ao fim e ao cabo, os políticos usam esses temas sensíveis como termômetros para testar os limites da seriedade que o público exige deles. E o resultado deste caso mostrou que há um teto para a falta de seriedade, mas que a sociedade ainda premia aqueles que não tratam o assunto com a devida gravidade.

O projeto, com sua fraca base jurídica, não teve apoio de lado nenhum. Até figuras conservadoras, como Michele Bolsonaro, que é contrária à assistolia fetal, se calaram sobre o projeto como um todo. 

Este episódio é um lembrete de que, se a população não exigir seriedade dos políticos, não são eles que terão a iniciativa de ser sérios. Quem planta vento, colhe tempestade.

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