Impeachment de Bolsonaro: a vingança e a vingança de Maia

08.07.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Impeachment de Bolsonaro: a vingança e a vingança de Maia

avatar
Redação O Antagonista
6 minutos de leitura 01.02.2021 11:00 comentários
Brasil

Impeachment de Bolsonaro: a vingança e a vingança de Maia

Depois de levar uma punhalada de ACM Neto, o seu Brutus, e demais cúmplices do DEM, Rodrigo Maia, ainda presidente da Câmara, cogita aceitar um dos pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro -- que aliciou com mais de 3 bilhões de reais em emendas e cargos no governo deputados de quase todos os partidos, inclusive o DEM, que deve abocanhar o Ministério da Educação, para que deixassem o barco de Baleia Rossi (sem trocadilhos), do MDB, e subissem no de Arthur Lira, do Progressistas, candidato do Planalto e do Centrão à presidência da Casa. Como relatado pela imprensa, em reunião ontem à noite, Maia afirmou ter em mãos um parecer jurídico favorável à abertura do processo de impeachment...

avatar
Redação O Antagonista
6 minutos de leitura 01.02.2021 11:00 comentários 0
Impeachment de Bolsonaro: a vingança e a vingança de Maia
Foto: Adriano Machado/Crusoé

Depois de levar uma punhalada de ACM Neto, o seu Brutus, e demais cúmplices do DEM, Rodrigo Maia, ainda presidente da Câmara, cogita aceitar um dos pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro — que aliciou com mais de 3 bilhões de reais em emendas e cargos no governo deputados de quase todos os partidos, inclusive o DEM, que deve abocanhar o Ministério da Educação, para que deixassem o barco de Baleia Rossi (sem trocadilhos), do MDB, e subissem no de Arthur Lira, do Progressistas, candidato do Planalto e do Centrão à presidência da Casa. Como relatado pela imprensa, em reunião ontem à noite, Maia afirmou ter em mãos um parecer jurídico favorável à abertura do processo de impeachment.

A política brasileira é aborrecidamente vergonhosa.  Assim como vem ocorrendo desde sempre, o que move esse pessoal é a vingança, visto que a única convicção que exibem é a de que o dinheiro do pagador de impostos lhes pertence. Até a semana passada, Maia dizia que o impeachment do sociopata causaria instabilidade indesejável a um país que precisa enfrentar uma pandemia mortífera. Fingia ignorar que a saída de Bolsonaro da presidência da República é parte de um eficaz enfrentamento nacional da crise sanitária causada pela Covid-19. Mas mudou de ideia ao ter o seu tapetinho puxado pelo Planato et caterva. Agora tem até parecer favorável, veja só. Maia é mais do mesmo.

O presidente da Câmara decide monocraticamente pela abertura do processo de impeachment do presidente da República, de acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal datado de 2015. Trata-se de decisão irrecorrível, sem possibilidade de recurso em plenário. A menos que o STF, uma vez provocado, mude de opinião (o que sempre é possível onde impera a jurisprudência de ocasião), o rito do impeachment seguiria numa comissão e o resto nem Deus sabe.

Maia poderia ter decidido pela abertura de um processo de impeachment no início do ano passado, quando ainda estava forte e Bolsonaro apenas esboçava a compra pesada do Centrão. Teria poupado o país de milhares de mortos pelo vírus. Não o fez. A sua conveniência política prevaleceu. Contentou-se com notas de repúdio às barbaridades cometidas pelo presidente da República. No apagar das luzes como mandachuva na Câmara, quer vingar-se e sair como herói. Assim como Eduardo Cunha fez com Dilma Rousseff. Assim como vem ocorrendo desde sempre, como já dito.

Se Maia abrir mesmo o processo de impeachment, contrariando os seus amigos do mercado, o Centrão vai regozijar-se: poderá cobrar fatura ainda mais alta de Bolsonaro, para mantê-lo no Planalto. Se a popularidade do presidente da República despencar, a rejeição a ele aumentar e manifestações populares de porte ocorrerem, o Centrão mudará de lado sem vergonha (e do que ele tem vergonha?), depois de lambuzar-se com o que lhe foi oferecido por Bolsonaro. O jogo do Centrão é de ganha-ganha-ganha; o do Brasil é invariavelmente de perde-ganha-perde. O impeachment de Bolsonaro em 2020 teria saído mais barato em vidas e dinheiro. Por causa de Maia, sairá mais caro em todos os aspectos, se vier a ocorrer. É o que temos no cardápio: vingança, não convicções.

Em 2016, escrevi um artigo sobre o papel da vingança na política brasileira. Escrevi-o depois que Eduardo Cunha se viu cassado e caiu na rede da Lava Jato. A história no Brasil não se repete como farsa porque não temos originalidade nenhuma, as variações de moldura enfatizando o tema único da pintura. Repito-me também, reproduzindo o artigo de quase cinco anos atrás:

“Devemos ao ex-presidente da Câmara, que agora terá de se haver com o juiz Sergio Moro, o impeachment de Dilma Rousseff. Não há como negar: o seu ato de vingança foi essencial para apeá-la do poder. Se não tivesse aceitado o pedido do trio Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal, é provável que Dilma ainda continuasse a presidir o Brasil, apesar de todos os seus crimes e com todas as consequências funestas que isso significaria. Aos petistas restou vingar-se de Eduardo Cunha votando pela cassação dele. Essa história ainda não acabou. O peemedebista disse que contará em livro toda a história do impeachment. Aguardamos ansiosamente, visto que deve sobrar também para os seus colegas de partido.

Livramo-nos de duas pragas graças à vingança, sentimento que ensinamos às crianças ser feio, mas que na política brasileira tem servido como antibiótico. Senão, vejamos:

Em 1992, Fernando Collor caiu porque o seu irmão, Pedro, deu uma entrevista bombástica à Veja, para contar as relações promíscuas entre o então presidente e o seu tesoureiro, Paulo César Farias. Pedro estava fulo com o fato de Fernando ter cantado a sua mulher, Thereza.

Em 2005, a mesma Veja tentou circunscrever o escândalo de corrupção nos Correios, revelado pela revista, ao PTB de Roberto Jefferson. Ao perceber que o PT estava armando para cima dele por meio da Veja, o petebista procurou a revista para denunciar o mensalão e foi repelido (presenciei o fato). Jefferson, então, soltou o verbo na Folha de S.Paulo, para contar que o esquema era muito maior e comandado pelos petistas.

Roberto Jefferson foi condenado no mensalão, assim como Eduardo Cunha será condenado no petrolão. Ambos levaram con- sigo os seus algozes.

A morte dos vingativos é final comum no gênero literário-teatral conhecido como “peças de vingança”, do qual William Shakespeare é o maior mestre. As ‘peças de vingança’ nacionais, contudo, não estão à altura de um bom dramaturgo. Os seus personagens são demasiado estúpidos.

Fernando Collor foi estúpido ao achar que o irmão seria corneado mansamente. O PT foi estúpido ao acreditar que poderia jogar toda a culpa da corrupção governamental sobre Roberto Jefferson, sem que ele reagisse. O PT foi igualmente estúpido ao imaginar que poderia anular Eduardo Cunha na presidência da Câmara, um dos cargos mais poderosos da República.

Havia algo de podre no estado da Dinamarca, para citar a frase de Marcellus em Hamlet, a ‘peça de vingança’ mais popular de Shakespeare. Há algo de podre no Estado do Brasil. Não precisamos, contudo, de fantasmas magníficos para os nossos personagens se vingarem uns dos outros.”

Temos de contar com a vingança, apenas, para termos a impressão fugidia de que algo mudou em Brasília. Aborrecidamente vergonhoso.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Crusoé: Mensagem de Gilmar à Seleção ganha nota de contexto no X

Crusoé: Mensagem de Gilmar à Seleção ganha nota de contexto no X
2

EUA rebate Itamaraty e classifica como “absurda” hipótese de ação militar no Brasil

EUA rebate Itamaraty e classifica como “absurda” hipótese de ação militar no Brasil
3

Justiça manda soltar investigados na Operação Exchange

Justiça manda soltar investigados na Operação Exchange
4

“Desmentido por instituição estrangeira séria”, diz Flávio sobre Lula

“Desmentido por instituição estrangeira séria”, diz Flávio sobre Lula
5

EBC apaga os rastros

EBC apaga os rastros
6

Banco do Brasil e Correios firmam acordo bilionário

Banco do Brasil e Correios firmam acordo bilionário
7

Eduardo Bolsonaro ataca Zé Trovão nas redes

Eduardo Bolsonaro ataca Zé Trovão nas redes
8

Bolsonarismo ganha um ‘novo comunista’: Zé Trovão

Bolsonarismo ganha um ‘novo comunista’: Zé Trovão
9

Zema confirma empresário entre os cotados para vice

Zema confirma empresário entre os cotados para vice
10

Crusoé: Defesa de ministro afastado do STJ alega disfunção erétil

Crusoé: Defesa de ministro afastado do STJ alega disfunção erétil
1

Bolsonarismo ganha um ‘novo comunista’: Zé Trovão

Bolsonarismo ganha um ‘novo comunista’: Zé Trovão
2

EBC apaga os rastros

EBC apaga os rastros
3

Crusoé: Defesa de ministro afastado do STJ alega disfunção erétil

Crusoé: Defesa de ministro afastado do STJ alega disfunção erétil
4

Eduardo Bolsonaro ataca Zé Trovão nas redes

Eduardo Bolsonaro ataca Zé Trovão nas redes
5

Moraes dá 10 dias para PF tomar depoimento de Flávio em ação sobre Lula

Moraes dá 10 dias para PF tomar depoimento de Flávio em ação sobre Lula
6

Direita "perdeu" ao não lançar Tarcísio, diz Zema

Direita "perdeu" ao não lançar Tarcísio, diz Zema
7

Banco do Brasil e Correios firmam acordo bilionário

Banco do Brasil e Correios firmam acordo bilionário
8

Crusoé: Mensagem de Gilmar à Seleção ganha nota de contexto no X

Crusoé: Mensagem de Gilmar à Seleção ganha nota de contexto no X
9

Zema confirma empresário entre os cotados para vice

Zema confirma empresário entre os cotados para vice
10

Senado aprova texto do ‘PIX Pensão’

Senado aprova texto do ‘PIX Pensão’
1

Horóscopo do dia: previsão para os 12 signos em 08/07/2026

Horóscopo do dia: previsão para os 12 signos em 08/07/2026
2

“Desmentido por instituição estrangeira séria”, diz Flávio sobre Lula

“Desmentido por instituição estrangeira séria”, diz Flávio sobre Lula
3

Justiça manda soltar investigados na Operação Exchange

Justiça manda soltar investigados na Operação Exchange
4

Irã promete resposta após ofensiva aérea dos EUA no Estreito de Ormuz

Irã promete resposta após ofensiva aérea dos EUA no Estreito de Ormuz
5

Agente do ICE mata mexicano em Houston

Agente do ICE mata mexicano em Houston
6

EUA rebate Itamaraty e classifica como “absurda” hipótese de ação militar no Brasil

EUA rebate Itamaraty e classifica como “absurda” hipótese de ação militar no Brasil
7

Banco do Brasil e Correios firmam acordo bilionário

Banco do Brasil e Correios firmam acordo bilionário
8

Em audiência nos EUA, Flávio Bolsonaro acusa governo Lula e pede suspensão de tarifas

Em audiência nos EUA, Flávio Bolsonaro acusa governo Lula e pede suspensão de tarifas
9

Crusoé: Mensagem de Gilmar à Seleção ganha nota de contexto no X

Crusoé: Mensagem de Gilmar à Seleção ganha nota de contexto no X
10

Eduardo Bolsonaro ataca Zé Trovão nas redes

Eduardo Bolsonaro ataca Zé Trovão nas redes

Tags relacionadas

ACM Neto Arthur Lira artigo Baleia Rossi coluna DEM Dilma Rousseff Eduardo Cunha eleição para a presidência da Câmara Impeachment Jair Bolsonaro Mario Sabino O Antagonista Rodrigo Maia vingança
< Notícia Anterior

"Rejeitamos o estigma de que somos 11 ilhas", diz Fux aos ministros do STF

01.02.2021 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

“Os produtores não aceitam quem é apoiado e apoia a esquerda”

01.02.2021 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Redação O Antagonista

Suas redes

Instagram

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Icone casa

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.