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USP não pode mais ser refém da lacração estudantil

Precisamos aprender a lidar com um fenômeno novo, o da lacração estudantil. Ele tem sido confundido, de forma errônea, com movimento estudantil. Não são o mesmo fenômeno...

Madeleine Lacsko

Precisamos aprender a lidar com um fenômeno novo, o da lacração estudantil. Ele tem sido confundido, de forma errônea, com movimento estudantil. Não são o mesmo fenômeno e têm objetivos diametralmente diferentes.

O movimento estudantil, concorde você com ele ou não, tem o objetivo de conseguir realizar as próprias propostas e convencer o máximo possível de gente sobre sua ideologia e seus projetos. A lacração estudantil tem o objetivo de não resolver nada e ficar em litígio constante.

Não é exclusividade dos estudantes. Muitos estudiosos falam sobre a quarta onda do feminismo, por exemplo. É um fenômeno que se inicia por volta de 2013, com as redes sociais. O objetivo dos coletivos deixa de ser avançar direitos e passa a ser reclamar do mundo e esculhambar quem ousa pensar de maneira diferente.

É algo que acontece com praticamente todo tipo de militância. Os  militantes e ativistas têm sido substituídos pela lacração, originada nas redes sociais.

São movimentos com maior aderência porque é possível ser parte deles mesmo sendo preguiçoso e sem abrir mão de privilégios. Por exemplo, alguém pode fingir que é antirracista porque faz posts sobre e xinga um monte de gente de racista. Pouco importa se é racista ou se vive da exploração racial.

Eu, que sou mulher, fico mais abismada com a cara de pau relacionada às lutas feministas. Promovemos à condição de feministas mulheres que vivem do trabalho do marido, acompanham o marido em tudo ou simplesmente são herdeiras que não mandam em nada na administração das próprias finanças.

É algo que se torna possível na era das redes, caso você faça parte da patota certa. Pessoas que são reconhecidas como ativistas passaram a ocupar o lugar de ativistas.

É um movimento natural porque beneficia quem já está no poder. Muito mais simples e cômodo lidar com quem luta para fingir que é lutador. Sempre é complicado para os poderosos lidar com quem realmente quer promover mudanças.

No caso da USP, a maioria dos alunos quer ter aula e a maioria dos professores também. Assim como na internet, estão todos reféns da lacração, que é uma minoria violenta. Ninguém entra na USP para ter aula e ninguém pode falar mais nada na internet. Todos com medo da reação dos novos princesos.

A carta da Faculdade de Direito dizendo que as aulas devem ser retomadas traz um detalhe muito interessante sobre a diferença entre lacração e movimento estudantil.

Não há uma liderança unificada nem uma pauta de reivindicações, o que torna impossível negociar. Os métodos são muito parecidos com os da lacração, que se intitula representante de um grupo sem ter representatividade real. É o famoso flanelinha de minoria.

Vários grupos foram recebidos, cada um tinha sua pauta, mas, mesmo quando se resolvia a questão, o conflito não acabava. Eles precisavam recorrer a lideranças, que às vezes nem faziam parte do ambiente universitário, eram de fora.

Muitas das reivindicações são feitas a quem não pode decidir sobre o tema. Um deles é o da cota de professores negros e indígenas, exigida por esses alunos à direção de unidades. Isso tem de ser feito por lei, o diretor não tem como resolver.

Uma tática comum na internet é feita quando se resolve uma demanda: “move the goalposts”, mover as traves do gol. A pessoa faz o gol e então o lacrador move a trave e exige outra coisa. Se uma demanda é atendida, logo se diz que não adianta e surge outra.

Exatamente isso tem ocorrido com os alunos. Exigiram contratação de mais professores. Foram contratados quase 150 professores. Agora querem a tal cota de minorias. Se resolverem, o problema será outro.

Essa é a diferença fundamental entre lacração e militância, ou entre a antipolítica e a política. Na política existem discordâncias e até polarização, mas o objetivo é criar pontes e fazer modificações na vida real. Na lacração, o objetivo é jamais resolver nada e manter o estado de constante conflito para lucrar politicamente ou financeiramente.

É diante disso que a USP está agora. Não há negociação com um grupo que não quer negociar. Foi feita uma salada de pautas que inclui metrô, CPTM e Sabesp no mesmo balaio. Na internet, muita gente se deixa dominar por esse pessoal. Na universidade pública, eles não podem decidir no grito e na ameaça quem tem ou não aula.

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