A prerrogativa do “rouba, mas faz”

07.07.2026

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O Antagonista

A prerrogativa do “rouba, mas faz”

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Felipe Moura Brasil
7 minutos de leitura 22.03.2024 13:24 comentários
Análise

A prerrogativa do “rouba, mas faz”

Defesa das empreiteiras amigas de Lula em nome dos pobres não se sustenta

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Felipe Moura Brasil
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A prerrogativa do “rouba, mas faz”
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Fundador do Prerrogativas, grupo de advogados que faturaram alto com clientes denunciados pela Lava Jato, Marco Aurélio Carvalho fez em entrevista ao Estadão publicada nesta sexta-feira, 22, o mesmo que o representante de PSOL, PCdoB e Solidariedade, Walfrido Warde, fizera em entrevista à Folha no dia 18: defendeu, em nome dos pobres, as empresas amigas de seu aliado Lula contra o combate à corrupção.

Marco Aurélio, que assinou a notícia-crime apresentada pelo petista Rui Falcão contra a Transparência Internacional, está na fila das boquinhas distribuídas pelo presidente aos detratores da força-tarefa. Foi cotado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, mas perdeu as duas primeiras para Cristiano Zanin e Flávio Dino. Foi cotado para comandar o Ministério da Justiça e Segurança Pública, com apoio do PT, mas perdeu a cadeira para Ricardo Lewandowski. Enquanto espera a vez, ele segue fiel a Lula, que chama de “nosso presidente”, e às narrativas lulogilmaristas sem as quais ninguém é indicado.

Por exemplo:

  • “A gente sempre foi a favor do combate à corrupção. Mas…”
  • “A gente faz o reconhecimento [de] que houve equívocos, que algumas pessoas foram responsáveis, de fato, por aquilo que foi apurado, [e] devem ser evidentemente responsabilizadas na dimensão pessoal, como pessoas físicas. Não há a menor dúvida. Mas…”
  • “O que houve [na Petrobras] foi um comissionamento criminoso de alguns de seus diretores, que tem que ser apurado, valores que foram devolvidos. Mas…”
  • “Ninguém está dizendo que a corrupção não tem que ser combatida, mas…”
  • A delação premiada é um “instrumento extremamente importante, mas…”

“Equívocos”

Os “equívocos” citados por Marco Aurélio são os crimes cometidos no maior esquema de suborno da história do Brasil. Crimes sem criminosos específicos, porque, de olho na clientela, ele não cita pelo nome “algumas pessoas” responsáveis, ao contrário do que faz ao atacar juiz e procurador que ajudaram a recuperar 15 bilhões de reais roubados – valor reconhecido até pelo ex-defensor da Odebrecht e colaborador do Prerrogativas, Augusto Arruda Botelho, que chegou a ganhar, e já perdeu, boquinha no governo Lula.

Marco Aurélio disse considerar “irrisórios” os “poucos acertos” da Lava Jato, porque, com ela, segundo o líder dos advogados das empreiteiras, “mais de R$ 50 bilhões deixaram de ser arrecadados em impostos e poderiam reverter em políticas públicas para a erradicação da fome e da miséria, para a geração de empregos, oportunidade de distribuição de riqueza, distribuição mais igualitária de renda”.

É como se distribuição igualitária de propina fosse garantia de distribuição igualitária de riqueza. Ou seja, quem atribuía à corrupção a pobreza do povo e o subdesenvolvimento do Brasil precisa atualizar sua consciência social com o novo “rouba, mas faz”.

“Dados do Dieese”

O fundador do Prerrô ainda citou outros “dados do Dieese” para alegar que “o país perdeu quase 5 milhões de empregos, mais precisamente 4,4 milhões. Entre 2014 e 2017, a operação foi responsável pela redução do PIB brasileiro em 3,6%. A arrecadação das empreiteiras caiu 85%.” Sem brincadeira. No duro.

A AR-RE-CA-DA-ÇÃO DAS EM-PREI-TEI-RAS. Na prática, ele reclamou que empresas turbinadas artificialmente pela obtenção de bilhões de reais em contratos públicos por meio de suborno tenham perdido “arrecadação”, após terem sido flagradas atuando em concorrência desleal no mercado de infraestrutura e construção civil.

Tudo isso com base em “estudo” da Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT de Lula, que Marco Aurélio tentou camuflar referindo-se exclusivamente ao Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. É um momento cômico da entrevista, quando o jornal questiona se os números citados por ele para desqualificar a Lava Jato “são de um estudo de autoria da CUT e do Dieese”.

Panfleto

“O estudo do Dieese, na verdade”, disfarçou. “O estudo foi feito pelo Dieese e não foi confrontado pela força-tarefa. Nem o Deltan teve a ousadia de confrontar nem o próprio ex-juiz Sergio Moro. Os dados são bem objetivos, tem metodologia científica, não é um estudo parcial. É um instituto extremamente sério, conceituado…”. Aham.

O Dieese, como o próprio site da CUT descreve, “é uma entidade criada e mantida pelo movimento sindical brasileiro”, cuja maior central é a CUT. O panfleto conjunto citado na entrevista como “estudo” está publicado no site do Departamento e exibe, já na primeira página, lado a lado, as logos da CUT e do Dieese, repetidas em todas as outras.

A alegação de que ele “não foi confrontado pela força-tarefa” faz lembrar à de Lewandowski, no julgamento da suspeição de Moro, sobre as manipulações, feitas em blogs lulistas, do conteúdo não autenticado de mensagens roubadas por hackers: as provas “podem ser ilícitas, mas, enfim, foram amplamente veiculadas e não foram contestadas”. É o método de dar às narrativas do regime um valor de verdade absoluta e até jurídica, porque alvos jamais ouvidos em julgamento ignoraram a panfletagem.

Não se sustenta

Curiosamente, Bernardo Guimarães, doutor em Economia por Yale, publicou na Folha, na terça-feira, 19, a análise “O argumento ‘rouba mas gera crescimento’ não se sustenta”, no qual refuta a ideia, embutida nele, de que a quebra dessas empresas reduziria a produtividade e, portanto, teria um impacto econômico negativo.

O ex-professor da London School of Economics (2004-2010), atualmente na Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EESP), mostra que uma coisa é uma empresa “muito produtiva, capaz de fazer obras com qualidade a um custo menor que as alternativas”, perder a “estrutura organizacional” que “fazia o todo ser maior que a soma das partes”. Outra, bem diferente, é acontecer o mesmo com uma empresa que, por ter “reputação de boa pagadora de propinas”, ganhava “muitas concorrências a preços altos”. Neste caso, “o tão falado argumento de perda de produtividade ocasionada pela quebra dessas empresas cai por terra”.

“Qualquer realocação de recursos na economia tem custo. Novas tecnologias, por exemplo, mudam a natureza dos empregos, exigem a realocação de pessoas em outras empresas. E tudo isso toma tempo e tem um custo no curto prazo. Esse tipo de custo estaria presente com a quebra de empresas cuja vantagem comparativa fosse a capacidade de ganhar concorrências baseada em esquemas de corrupção.

Esse, porém, é um custo que queremos pagar. É parte do processo de destruição criativa pelo qual passa a economia.

Empresas que têm como vantagem comparativa as ligações com políticos e a corrupção não são especialmente produtivas, mas ganham concorrências. Se elas não existissem, haveria mais espaço para o crescimento de outras mais produtivas e mais incentivos para o investimento em ganhos de produtividade. É isso que gera crescimento.”

O sistema, porém, prefere manter a corrupção dos privilegiados eternamente intacta, impedindo o crescimento do país, a pagar o custo temporário de enfrentá-la, para promover a prosperidade geral. Para isso, seus porta-vozes manipulam a indignação da sociedade, jogando a culpa de corruptos e corruptores sobre seus críticos e combatentes.

Vai uma boquinha aí?

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