Contra os direitos humanos: Brasil em defesa da Rússia e do Irã

18.09.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
Contra os direitos humanos: Brasil em defesa da Rússia e do Irã
avatar
Catarina Rochamonte
7 minutos de leitura 08.04.2024 06:25 comentários
Análise

Contra os direitos humanos: Brasil em defesa da Rússia e do Irã

Não podemos deixar que o nosso país se preste a ser o anteparo diplomático dos regimes mais opressores do mundo sem expor e criticar tal hipocrisia.

avatar
Catarina Rochamonte
7 minutos de leitura 08.04.2024 06:25
Contra os direitos humanos: Brasil em defesa da Rússia e do Irã
Reprodução

A diplomacia brasileira cometeu mais duas ignomínias: na última quinta-feira, 4 de abril, no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, o Brasil absteve-se na votação sobre a extensão do inquérito sobre crimes de guerra na Ucrânia e sobre a violação de direitos das mulheres no Irã.

Apesar das covardes e indecentes abstenções do Brasil, felizmente ambas as resoluções foram aprovadas. Não podemos, porém, deixar que o nosso país se preste a ser o anteparo diplomático dos regimes mais opressores do mundo sem expor e criticar tal hipocrisia.

Diplomacia lulista em defesa da Rússia

Em seu perfil do X, o diplomata, doutor em ciências sociais e escritor Paulo R. de Almeida adjetivou de “escabrosa” e “um acinte completo”, a justificativa apresentada pela delegação do Brasil no Conselho de Direitos Humanos para não apoiar as investigações sobre violações cometidas pela Rússia na Ucrânia.

O representante do Itamaraty admitiu o deslocamento forçado de crianças ucranianas e o ataque a civis, mas julgou a resolução “desequilibrada.”

Tovar da Silva Nunes, representante permanente do Brasil junto às Nações Unidas em Genebra, declarou que o país manifesta “profunda preocupação” com a situação na Ucrânia, “particularmente com as alegadas violações envolvendo crianças deslocadas e deportadas, ataques a civis e o crescente número de mortes. No entanto, permanecemos descontentes com o texto diante de nós. A resolução é desequilibrada e coloca o fardo das violações dos direitos humanos apenas em um lado do conflito, não deixando espaço suficiente para o diálogo que poderia criar condições para prevenir violações de direitos humanos e construir uma paz duradoura na região.

O que se pode inferir da mal formulada crítica do representante brasileiro à resolução do Conselho da ONU é que o Brasil estaria descontente porque o texto não condena também a Ucrânia por ter sido invadida, por ter seus civis assassinados, suas mulheres estupradas e suas crianças sequestradas.

Como se não bastasse, o embaixador brasileiro também criticou o texto da resolução por mencionar as iniciativas jurídicas contra a Rússia no Tribunal Penal Internacional e na Corte Internacional de Justiça. Segundo o embaixador de Lula, as menções seriam “prejudiciais” ao diálogo.

O governo de Lula, como bem explicou Carlos Graieb, está se esmerando em uma diplomacia assassina, desmontando os mecanismos de dissuasão de que o mundo dispõe contra perpetradores dos piores crimes: “Lula transformou o Itamaraty em escritório de advocacia de todos os tiranos que atropelaram os direitos humanos nas duas últimas décadas. Pôs a diplomacia brasileira a serviço de açougueiros que planejam e executam as piores atrocidades mundo afora”, escreveu Graieb, aqui em O Antagonista.

Enquanto o mundo livre se alarma com as irresponsáveis ameaças nucleares de Putin e se prepara para as consequências de uma vitória russa sobre a Ucrânia e de um possível ataque russo contra a Otan, Lula se prepara para receber o ditador megalomaníaco no Brasil com tapete vermelho, por ocasião da reunião de cúpula do G20, que ocorrerá em novembro.

Diplomacia lulista em defesa do Irã

No que concerne à resolução que estende as atividades do relator especial da ONU no Irã na investigação da violação de direitos contra mulheres, crianças e minorias étnicas, o embaixador brasileiro, Tovar da Silva Nunes, justificou a abstenção do Brasil alegando que o governo iraniano estaria cooperando com as investigações iniciadas em 2022.

Em 2022, como se sabe, a jovem iraniana, Mahsa Amini, de 22 anos, foi detida e espancada pela polícia moral do Irã por usar de forma inadequada o hijab, véu para cobrir a cabeça, de uso obrigatório, segundo a lei islâmica. Ela morreu sob custódia policial, ou seja, foi assassinada pelo regime teocrático que o Brasil acaba de defender na ONU.

Sua morte desencadeou uma onda de protestos em todo o Irã e sua imagem tornou-se um símbolo de resistência feminina contra a opressão. Parte da população, desafiando o regime teocrático do aiatolá Ali Khamenei, saiu às ruas entoando o slogan “mulheres, vida e liberdade”.

Como reação aos protestos, “todo o aparelho do Estado foi mobilizado com as forças de segurança utilizando armas de fogo, resultando em feridos e mortes”, disse Sara Hossain, presidente da Missão Internacional de Apuração de Fatos sobre o Irã, dirigindo-se ao Conselho de Direitos Humanos, em Genebra.

A Missão Internacional concluiu que ocorreram, na ocasião, cerca de 551 mortes, sendo pelo menos 49 mulheres e 68 crianças.

Sara Hossain disse também que muitos manifestantes “removiam o seu hijab em locais públicos como um ato de desafio contra leis e práticas discriminatórias de longa data” e que “as forças de segurança dispararam contra os manifestantes e também contra os transeuntes a distâncias muito curtas e de forma direcionada, causando ferimentos nas cabeças, pescoços, troncos, áreas genitais, mas particularmente nos olhos” e acrescentou: “descobrimos que centenas de manifestantes sofreram ferimentos que mudaram suas vidas, com muitos deles agora cegos.

Contrariamente ao que alegou o embaixador brasileiro, a Missão afirmou que não houve cooperação alguma por parte do governo iraniano, mas que, apesar disso, conseguiu recolher mais de 27.000 elementos de prova.

O Relator Especial sobre a situação dos direitos humanos no Irã também apresentou o seu relatório. Dentre as violações mais graves registradas, Javaid Rehman destacou o aumento nas penas de morte e execuções, incluindo crianças, além de repressão contínua aos direitos das mulheres.

O Brasil admitiu a existência de pena de morte contra crianças no Irã e até esboçou alguma preocupação com isso, mas, em nome do diálogo construtivo com os infanticidas e feminicidas, resolveu se abster:

O Brasil continua muito preocupado com a aplicação da pena de morte no país, inclusive contra crianças”, declarou o embaixador brasileiro, mas acrescentou: “Ao entender que o Irã se esforçará para melhorar a situação dos direitos humanos e baseado no espírito construtivo, o Brasil se abstém.

Não há indício algum de que o Irã passará a se preocupar com direitos humanos, simplesmente porque essa noção não faz parte da sua visão de mundo fundamentalista. O Irã é uma teocracia que aplica a lei islâmica contra indivíduos sob acusações vagas. Não há direitos individuais, logo não há direitos humanos. No Irã é crime insultar o profeta, ter relações homossexuais, cometer adultério, consumir álcool ou deixar de usar um maldito véu. E o Estado pode te matar por causa disso.

A única coisa da qual o Irã deu indício nos últimos dias é que está disposto a entrar em guerra contra Israel. Após um ataque ao consulado iraniano na Síria, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, ameaçou: O perverso regime sionista será punido pelos nossos homens corajosos.”

Se a terceira guerra mundial se iniciar, o Brasil – graças aos esforços de Lula e seus assessores internacionais – já estará devidamente alinhado com eixo do mal.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Novo pede a Fachin que afaste Moraes de caso sobre mensagens com Vorcaro

Novo pede a Fachin que afaste Moraes de caso sobre mensagens com Vorcaro
2

Ex-diretora de instituto ligado a Gilmar recebeu R$ 33 milhões de Vorcaro

Ex-diretora de instituto ligado a Gilmar recebeu R$ 33 milhões de Vorcaro
3

Flávio Bolsonaro anuncia fiscais de urna para eleição

Flávio Bolsonaro anuncia fiscais de urna para eleição
4

Mendonça rejeita ação de Zé Trovão contra reajuste do Bolsa Família

Mendonça rejeita ação de Zé Trovão contra reajuste do Bolsa Família
5

Precisamos falar sobre a PGR 

Precisamos falar sobre a PGR 
6

Lula promete caneta emagrecedora de graça às vésperas da eleição

Lula promete caneta emagrecedora de graça às vésperas da eleição
7

Viana pede afastamento de Alcolumbre após fechamento do plenário do Senado

Viana pede afastamento de Alcolumbre após fechamento do plenário do Senado
8

Datafolha: Lula tem 39% e Flávio, 36% no primeiro turno

Datafolha: Lula tem 39% e Flávio, 36% no primeiro turno
9

“Gilmar esqueceu de contar que foi sócio do Gonet”, diz Zema

“Gilmar esqueceu de contar que foi sócio do Gonet”, diz Zema
10

Mendonça será relator de ação de Zé Trovão para barrar reajuste do Bolsa Família

Mendonça será relator de ação de Zé Trovão para barrar reajuste do Bolsa Família
1

Wellington Dias nega relação entre reajuste do Bolsa Família e eleição

Wellington Dias nega relação entre reajuste do Bolsa Família e eleição
2

Lula acusa Mendonça de usar caso Master para “fazer política”

Lula acusa Mendonça de usar caso Master para “fazer política”
3

Papo Antagonista: Bateu o desespero! Em queda, Lula aumenta valor do Bolsa Família

Papo Antagonista: Bateu o desespero! Em queda, Lula aumenta valor do Bolsa Família
4

Ex-diretora de instituto ligado a Gilmar recebeu R$ 33 milhões de Vorcaro

Ex-diretora de instituto ligado a Gilmar recebeu R$ 33 milhões de Vorcaro
5

Flávio não vai acionar TSE contra reajuste do Bolsa Família

Flávio não vai acionar TSE contra reajuste do Bolsa Família
6

Em Washington, Eduardo fala em sanções dos EUA contra ministros do STF

Em Washington, Eduardo fala em sanções dos EUA contra ministros do STF
7

Novo pede a Fachin que afaste Moraes de caso sobre mensagens com Vorcaro

Novo pede a Fachin que afaste Moraes de caso sobre mensagens com Vorcaro
8

Lula promete caneta emagrecedora de graça às vésperas da eleição

Lula promete caneta emagrecedora de graça às vésperas da eleição
9

Datafolha: Lula tem 39% e Flávio, 36% no primeiro turno

Datafolha: Lula tem 39% e Flávio, 36% no primeiro turno
10

Rússia disposta a negociar paz com a Ucrânia?

Rússia disposta a negociar paz com a Ucrânia?
1

Aos 96 anos, Buffett deixa presidência do conselho da Berkshire

Aos 96 anos, Buffett deixa presidência do conselho da Berkshire
2

O interesse de Vorcaro no filho de Fux

O interesse de Vorcaro no filho de Fux
3

Armínio aponta “populismo” no aumento do Bolsa Família

Armínio aponta “populismo” no aumento do Bolsa Família
4

Defesa de Vorcaro aproveita crise no STF e pede revogação de prisão preventiva

Defesa de Vorcaro aproveita crise no STF e pede revogação de prisão preventiva
5

O encontro entre Gilmar Mendes e Daniel Vorcaro

O encontro entre Gilmar Mendes e Daniel Vorcaro
6

Milton Leite segue foragido

Milton Leite segue foragido
7

Mercados de sexta digerem juros, petróleo e eleição

Mercados de sexta digerem juros, petróleo e eleição
8

Falsários usam celular do ministro da Defesa para tentar dar um golpe

Falsários usam celular do ministro da Defesa para tentar dar um golpe
9

Flávio promete manter reajuste de Lula no Bolsa Família

Flávio promete manter reajuste de Lula no Bolsa Família
10

Talibãs da imprensa tumultuam negócios para atingir Mendonça

Talibãs da imprensa tumultuam negócios para atingir Mendonça

Tags relacionadas

Conselho de Direitos Humanos da ONU Itamaraty República Islâmica do Irã Rússia
< Notícia Anterior

Papa Francisco encontra famílias de reféns

08.04.2024 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

TikTok removeu 3 milhões de vídeos sobre Israel e Hamas

08.04.2024 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Catarina Rochamonte

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.