Os petistas nunca vão superar o trauma do Plano Real

26.06.2026

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O Antagonista

Os petistas nunca vão superar o trauma do Plano Real

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Rodolfo Borges
6 minutos de leitura 03.07.2024 14:03 comentários
Análise

Os petistas nunca vão superar o trauma do Plano Real

Celebração do sucesso 30 anos após o lançamento da moeda parece insuportável para os petistas, que não conseguiram evitar a passagem de alguns recibos nos últimos dias

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Rodolfo Borges
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Os petistas nunca vão superar o trauma do Plano Real
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Passados 30 anos, o Plano Real segue incomodando o PT, seu mais ferrenho opositor. A celebração do sucesso da moeda criada no governo Itamar Franco sob a batuta de Fernando Henrique Cardoso parece insuportável para os petistas, que não conseguiram evitar a passagem de alguns recibos nos últimos dias.

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Social e Econômico (BNDES), Aloizio Mercadante (foto), assinou artigo na Folha de S.Paulo para reconhecer que “a valorização inicial do câmbio foi essencial para a rápida redução da inflação, mas”…. “trouxe um alto custo: o início da era de elevados juros reais”, completando: “de 1994 a 1999, a taxa básica média de juro real foi de 22% ao ano”.

Mercadante fez assim seu balanço do plano: “Depois de 30 anos, a história mostra que o Plano Real teve êxito ao reduzir a inflação, mas não em garantir a estabilidade macroeconômica e a retomada do crescimento”.

Segundo ele, “a estabilização do Plano Real só se completou no governo Lula, quando o país quitou a dívida com o FMI e começou a acumular reservas internacionais, que até hoje nos dão autonomia de política econômica”.

“Mais um fingindo”

Ex-diretor do Banco Central, e economista Alexandre Schwartsman reagiu assim, via redes sociais, ao artigo do presidente do BNDES: “Mais um fingindo que não havia previsto que o Real faria água depois das eleições de 1994 (nem que havia apoiado fervorosamente o Plano Collor). Deveria guardar silêncio obsequioso sobre o assunto, mas isto requer um caráter que não possui”.

Quem também não conseguiu ficar em silêncio foi o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann. Mais ousado que Mercadante, Pochmann escreveu sobre “o outro lado” do Plano Real — o lado errado.

“Versão dos derrotados”

“Os 30 anos da estabilização monetária alcançados pelo Plano Real têm sido notabilizados exclusivamente pela versão neoliberal na mídia comercial. Sem sequer ocasionar constrangimentos, pois laudatória e a-crítica, própria do pensamento único dominante no Brasil contemporâneo”, disse o presidente do Ipea, num papo sinuoso de não contemplar a “versão dos derrotados”.

Segundo Pochmann, “o governo Itamar continha desde a sua origem, ademais da dominância neoliberal na área econômica (FHC na Fazenda e Malan no Bacen), os sociais democratas na área social (W. Barelli no Trabalho, L. Erundina na Administração, J. Haddad na Saúde, C. Amorim nas Relações Exteriores)”.

O trauma

O presidente do Ipea deixa transparecer o trauma mais claramente ao dizer que a política norteou “decisões acerca dos fundamentos originários da estabilização monetária almejada”, pois, entre os aspectos que guiaram as discussões estava um “intrinsecamente vinculado à candidatura de FHC na sucessão de Itamar, quando Lula já liderava o cenário eleitoral”.

Lula liderava, mas Fernando Henrique se elegeu duas vezes no primeiro turno contra o petista, na esteira do efeito acachapante do real. O impacto eleitoral é inegável, mas, como mostram as entrevistas concedidas e os artigos publicados por formuladores do real por ocasião dos 30 anos do plano que estabilizou a economia brasileira, o debate proposto por Pochmann passa longe do alvo.

Protesto?

“É claro que a movimentação festiva em torno dos 30 anos do real incomoda o governo. Eles sempre foram contra e nunca recuaram. Talvez seja por aí a explicação para tanto interesse nessa efeméride: é um protesto”, escreveu o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, um dos formuladores do real, em artigo no Estadão.

Franco segue: “O fato é que Lula e seu ministro da Fazenda [Fernando Haddad] estão muito parecidos com as lideranças anteriores a 1994, tanto pelos diagnósticos econômicos destrambelhados, quanto pela retórica que subestima a inteligência dos chamados agentes econômicos”.

A percepção é parecida com a de outros colegas de Plano Real. É como se o PT não tivesse atuado contra a nova moeda apenas durante sua implementação, mas sustentasse a oposição à nova moeda até hoje, ao longo de três décadas.

“Desreformas”

“O crescimento não veio como a gente esperava. Por que não veio? Bom, nós fizemos oito anos de reformas, mas aí veio o PT e fez 15 anos de ‘desreformas'”, disse o economista Edmar Bacha, outro “pai do real”, em entrevista à Folha de S.Paulo.

Segundo Bacha, “o Lula, nos dois primeiros anos [do primeiro mandato], ainda fez alguma coisa”, mas, “na hora que veio a bonança [alta no preço das commodities que gerou crescimento interno e global], falou que não precisava fazer mais porcaria nenhuma”.

“Em cima da bonança veio o pré-sal. O mundo parou de ter crise, por causa da China. Então, o Lula não fez mais nada em termos dessas reformas estruturais de que o país necessitava, especialmente a abertura econômica”, lamentou o economista.

Reformas

“A reforma tributária só agora está vindo, e toda despedaçada. A reforma do Estado nem foi tocada. Toda a questão das carreiras no setor público nunca foi devidamente estruturada”, completou Bacha. Pedro Malan, presidente do Banco Central e ministro da Fazenda durante os anos de implementação do real, fez coro em outra entrevista:

“Tentamos definir um regime fiscal com base na Lei de Responsabilidade Fiscal, mas isso continua sendo, a meu ver, um grande desafio. Ela foi contestada desde o início por alguns que acham, no Brasil — uma opinião que eu respeito, mas acho equivocada —, que a responsabilidade fiscal não é compatível com a responsabilidade social e, portanto, um pronunciamento oficial na época de um grande partido político era que ela precisava ser radicalmente modificada, porque a responsabilidade fiscal não podia se dar às expensas da responsabilidade social, o que eu acho um equívoco.”

Gastos

Ganha uma cadeira no conselho de Itaipu quem acertar o “grande partido político” de que Malan fala. Segundo o economista, “uma sociedade e um governo que não têm o mínimo de compromisso com a responsabilidade fiscal encontrarão formas de expandir os gastos, independentemente do estatuto jurídico do seu Banco Central”.

“Até começo a ver no debate público no Brasil uma defesa pela revisão de gastos. Mas há um complicador: nós não temos uma tradição nisso. Espero que os debates ao longo dos próximos três anos e naqueles que se seguirão permitam que a sociedade reflita um pouco mais sobre isso”, comentou Malan, lembrando que “governar é fazer escolhas, definir prioridades, saber que não é possível fazer tudo, e que nem tudo é possível porque seja desejável”.

Trinta anos depois da implementação do Plano Real, Lula segue falando que seu governo não faz gastos, mas “investimentos”. Um governo assim não pode ser real.

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Rodolfo Borges

Rodolfo Borges é jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB). Trabalhou em veículos como Correio Braziliense, Istoé Dinheiro, portal R7 e El País Brasil.

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