Mais gente precisa defender a Lava Jato

16.07.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Mais gente precisa defender a Lava Jato

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 20.03.2022 15:50 comentários
Brasil

Mais gente precisa defender a Lava Jato

A "Folha de S. Paulo" publicou neste domingo uma entrevista importante com o diretor da Transparência Internacional no Brasil, o economista Bruno Brandão. Trata-se de uma voz independente fazendo aquilo que quase ninguém tem feito: um contraponto aos críticos hiperativos da Lava Jato, políticos e advogados que enriqueceram defendendo políticos, que tentam emplacar a tese de que a operação nada mais foi do que um projeto de poder de Sergio Moro e alguns procuradores...

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 20.03.2022 15:50 comentários 0
Mais gente precisa defender a Lava Jato
Foto: STF

A “Folha de S. Paulo” publicou neste domingo uma entrevista importante com o diretor da Transparência Internacional no Brasil, o economista Bruno Brandão. Trata-se de uma voz independente fazendo aquilo que quase ninguém tem feito: um contraponto aos críticos hiperativos da Lava Jato, políticos e advogados que enriqueceram defendendo políticos, que tentam emplacar a tese de que a operação nada mais foi do que um projeto de poder de Sergio Moro e alguns procuradores.

Sobre as motivações do núcleo original de protagonistas da Lava Jato, Brandão lembra que eram todos integrantes do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal que já tinham larga experiência e muitas frustrações no combate aos crimes de colarinho branco: “são agentes que dedicaram suas vidas a essa causa e experimentaram a realidade do nosso sistema de impunidade”, diz o economista.

Nunca é demais lembrar que o alvo original da Lava Jato não foi nenhum político, mas um doleiro, Alberto Youssef, que já era velho conhecido da polícia federal. Quando foram atrás de Youssef, e mesmo quando descobriram, meio que por acaso, que ele tinha ligações com um ex-diretor da Petrobras, os investigadores não esperavam encontrar um esquema de corrupção que envolvia diversos partidos e as maiores empreiteiras do país. Imaginavam estar na trilha de um caso clássico de lavagem de dinheiro

Sobre a “politização” da Lava Jato, Brandão faz uma observação certeira: “a operação parece ter feito cálculos políticos em alguns de seus movimentos porque as defesas eram políticas”. De fato, não existe lugar comum maior entre donos de mandato, mesmo aqueles que são apanhados com dinheiro em uma mala ou enfiado na cueca, do que dizer que estão sendo alvo de uma “armação de inimigos políticos”. Ao mesmo tempo, eles vão buscar abrigo no corporativismo, em que amigos e inimigos se irmanam em favor da blindagem de todos. Foi assim com a Lava Jato desde o instante em que ela descobriu o primeiro vínculo entre o dinheiro da Petrobras e os chefões de partidos políticos.

Pode-se discutir se a resposta da operação às manobras de seus alvos políticos foi a melhor a longo prazo, do ponto de vista institucional. Brandão acha que os cálculos políticos levaram a “grandes erros”. O que não se pode dizer é que a motivação política estava presente no momento em que um inquérito sobre Youssef foi retirado de uma pilha empoeirada de papéis, dando origem à Lava Jato.  

O outro ponto fundamental da entrevista do diretor da Transparência Internacional é que a resposta do Legislativo à Lava Jato (e eu acrescentaria aqui, também a resposta do STF, especialmente sua Segunda Turma (foto)), não foi no sentido de aprimorar as ferramentas de combate à corrupção. “O que nós vimos não foi uma correção de erros, foi um desmanche”, diz Brandão. 

Ele faz uma comparação perfeita entre a reação do meio empresarial e a do meio político à Lava Jato. O primeiro, tratou de criar mecanismos de conformidade, ou seja, adaptou suas regras internas para tornar a corrupção mais difícil de ser praticada e mais custosa para os desonestos. O segundo, aprovou uma nova Lei de Improbidade e ainda pretende aprovar um novo Código Eleitoral – ambos mais brandos, mais lenientes com políticos e partidos. “Os partidos não mudaram suas práticas, a democracia interna, a transparência. Ao contrário: passaram leis que reduziram ainda os controles sobre a utilização de recursos públicos”, diz Brandão. A resistência do Congresso a revelar o caminho do dinheiro gasto nas emendas de relator fala por si própria. 

Há pouco na entrevista sobre o Judiciário. Mas o discurso dos advogados do Clube do Charuto sobre a Lava Jato é desonesto – e a maneira como vários juízes do STF deixam que esse discurso se propague é vergonhosa. 

A Lava Jato usou leis sobre corrupção que haviam sido aprovadas pouco tempo antes, e sempre leva tempo para que o uso de novos instrumentos jurídicos assuma formas estáveis. O tamanho da operação criou situações sobre as quais não havia precedentes, e muitos entendimentos sobre regras processuais foram mudando com o carro em movimento. Mas tudo que resultou de hesitações, justificáveis ou não, do Supremo, hoje aparece como “culpa” de Moro e do MPF. 

A questão da competência da 13a. Vara de Curitiba é um exemplo disso: o STF levou sete anos para decidir que Moro não deveria ter julgado certos casos, mas nenhum dos ministros faz qualquer objeção quando os advogados de Lula enchem a boca para dizer que ele foi condenado por um juiz “incompetente”. É como se STF tivesse sido enganado ou induzido ao erro pelo magistrado ardiloso da primeira instância. 

Isso precisa acabar, e nem é por causa de Sergio Moro. É para que as coisas voltem a ter sua devida proporção: os instrumentos de combate à corrupção deixem de ser vistos como inimigos do desenvolvimento do país (como quer o ministro Ricardo Lewandowski) e a própria corrupção, como invenção de uma trupe de Curitiba. Mais gente precisa falar como Bruno Brandão fez hoje. 

 

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Ex-apresentador da Globo, Renato Machado morre aos 83 anos

Ex-apresentador da Globo, Renato Machado morre aos 83 anos
2

Marco Rubio joga a culpa do tarifaço de Trump no colo de Lula

Marco Rubio joga a culpa do tarifaço de Trump no colo de Lula
3

EUA confirmam novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros

EUA confirmam novo tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros
4

Michelle, tarifaço e Vorcaro vergam Flávio, mas não o quebram

Michelle, tarifaço e Vorcaro vergam Flávio, mas não o quebram
5

Flávio culpa Lula por tarifaço e chama petista de “Biden brasileiro”

Flávio culpa Lula por tarifaço e chama petista de “Biden brasileiro”
6

Quaest indica que novo tarifaço é pior para Flávio do que para Lula

Quaest indica que novo tarifaço é pior para Flávio do que para Lula
7

Sóstenes questiona foto de Flávio com ‘Sicário’: “E se isso não for IA?”

Sóstenes questiona foto de Flávio com ‘Sicário’: “E se isso não for IA?”
8

Alcolumbre agenda esforço concentrado antes das eleições

Alcolumbre agenda esforço concentrado antes das eleições
9

Defesa Civil do Rio Grande do Sul faz live sobre “eventos severos”

Defesa Civil do Rio Grande do Sul faz live sobre “eventos severos”
10

Governo Lula reage e diz que vai recorrer à OMC contra tarifaço

Governo Lula reage e diz que vai recorrer à OMC contra tarifaço
1

Temer diz que carta de Bolsonaro pode levar à perda da prisão domiciliar

Temer diz que carta de Bolsonaro pode levar à perda da prisão domiciliar
2

Flávio culpa Lula por tarifaço e chama petista de “Biden brasileiro”

Flávio culpa Lula por tarifaço e chama petista de “Biden brasileiro”
3

Marco Rubio joga a culpa do tarifaço de Trump no colo de Lula

Marco Rubio joga a culpa do tarifaço de Trump no colo de Lula
4

Tarifaço é bem pior para Flávio do que parece

Tarifaço é bem pior para Flávio do que parece
5

Deputados franceses aprovam eutanásia e suicídio assistido

Deputados franceses aprovam eutanásia e suicídio assistido
6

Jornal inglês conta "31 truques sujos" da Argentina na semifinal

Jornal inglês conta "31 truques sujos" da Argentina na semifinal
7

Governo Lula reage e diz que vai recorrer à OMC contra tarifaço

Governo Lula reage e diz que vai recorrer à OMC contra tarifaço
8

Michelle, tarifaço e Vorcaro vergam Flávio, mas não o quebram

Michelle, tarifaço e Vorcaro vergam Flávio, mas não o quebram
9

Tarifa americana pressiona mercado brasileiro nesta quinta

Tarifa americana pressiona mercado brasileiro nesta quinta
10

Brasil na liderança das Américas (em crime organizado)

Brasil na liderança das Américas (em crime organizado)
1

Crusoé: Galípolo defende Pix após tarifaço

Crusoé: Galípolo defende Pix após tarifaço
2

Colômbia anuncia retomada de relações com Israel

Colômbia anuncia retomada de relações com Israel
3

Unhas para o inverno: veja tendências de cores para a estação

Unhas para o inverno: veja tendências de cores para a estação
4

Alckmin contesta novo tarifaço dos EUA: “Medida descabida”

Alckmin contesta novo tarifaço dos EUA: “Medida descabida”
5

Boy sober: 5 formas de transformar a solteirice em uma oportunidade de autoconhecimento

Boy sober: 5 formas de transformar a solteirice em uma oportunidade de autoconhecimento
6

Warren Buffett encerra doações à Fundação Gates

Warren Buffett encerra doações à Fundação Gates
7

Piloto do ‘Milagre no Hudson’ é diagnosticado com Alzheimer

Piloto do ‘Milagre no Hudson’ é diagnosticado com Alzheimer
8

Pentágono exigirá exame anual de testosterona para soldados

Pentágono exigirá exame anual de testosterona para soldados
9

Acordo ortográfico falhou e é inútil, diz linguista português

Acordo ortográfico falhou e é inútil, diz linguista português
10

Alemanha rechaça interferência dos EUA nas eleições

Alemanha rechaça interferência dos EUA nas eleições

Tags relacionadas

2ª Turma do STF corrupção eleições de 2022 Grupo Prerrogativas Lava Jato Sergio Moro STF Transparência Internacional
< Notícia Anterior

Ucrânia anuncia morte de vice-comandante russo no Mar Negro

20.03.2022 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Em Moscou, ucranianos são interrogados por agentes russos

20.03.2022 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.