Pluralidade social não substitui a pluralidade política

14.08.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Pluralidade social não substitui a pluralidade política

avatar
Augusto de Franco
8 minutos de leitura 07.01.2023 10:36 comentários
Opinião

Pluralidade social não substitui a pluralidade política

Estão confundindo tudo. É bom ter pluralidade de gênero, orientação sexual, raça, etnia ou cor, condição física ou psíquica etc. mas essa pluralidade social não significa pluralidade política. Uma frente democrática não pode...

avatar
Augusto de Franco
8 minutos de leitura 07.01.2023 10:36
Pluralidade social não substitui a pluralidade política
Reprodução/Tv Senado

Estão confundindo tudo. É bom ter pluralidade de gênero, orientação sexual, raça, etnia ou cor, condição física ou psíquica etc. mas essa pluralidade social não significa pluralidade política. Uma frente democrática não pode ser só uma frente de esquerda com mulheres de esquerda, pretos de esquerda, gays de esquerda, índios de esquerda, portadores de diferenças de esquerda.

Os que agora querem valorizar as minorias sociais (na onda do identitarismo), não adotam a mesma postura em relação às minorias políticas. Os identitaristas, em geral, admitem a diversidade e a pluralidade social, mas não a diversidade e a pluralidade política.

Em qualquer lugar defendem a presença de representantes de mulheres e da chamada comunidade LGBTQIA+, de pretos, de indígenas ou de povos originários e de portadores de deficiências, mas desde que estejam alinhados ao mesmo campo ideológico. Se estiverem no campo ideológico oposto (considerado inimigo pelos populistas), não! Neste caso, é melhor que não pontifiquem. Ora, não adianta incluir minorias sociais se continuamos excluindo minorias políticas democráticas.

Democracia não é a mesma coisa que cidadania. Democracia pressupõe pluralidade e diversidade política. Isso não pode ser substituído por pluralidade e diversidade social, que é importante, mas tem a ver mais propriamente com cidadania.

É desejável que o processo de democratização crie condições para a universalização da cidadania. Mas uma cidadania universalizada e inclusiva não pode ser precondição para o exercício da democracia. Se fosse assim nenhuma democracia teria nascido. A primeira democracia, dos antigos atenienses, nasceu numa sociedade com escravos. A democracia foi reinventada pelos modernos, nas suas variantes inglesa, americana e francesa, em sociedades com pouca pluralidade e diversidade social e onde a cidadania era restrita.

Hoje a democracia já está mais universalizada nesses países e no mundo em geral. Mas se os inventores e reinventores da democracia ficassem esperando a universalização da cidadania para experimentar a democracia, jamais teríamos ouvido a palavra democracia.

Em termos práticos, se incluímos uma mulher de esquerda, um preto de esquerda, um gay de esquerda, um indígena de esquerda etc., isso é melhor do que não incluir, mas não é pluralidade e diversidade política. Assim, entretanto, foi composto o ministério de Lula que, na falta de pluralidade e diversidade política (pois, tirando os fisiológicos alugados para fazer maioria no Congresso, só tem dois capturados fora do campo da esquerda – Alckmin e Simone) povoou seu plantel com “representantes” das minorias sociais (até a representante dos povos originários é do… PSOL).

Há uma reengenharia ideológica em curso nesses movimentos. O populismo de esquerda está promovendo uma alteração do significado (na intenção e na extensão do conceito) de democracia. A palavra está sendo usada para designar cidadania (para o povo) e soberania (do povo). E ‘povo’, aqui, não significa população, nem é um conceito sociológico e sim político-ideológico: é o contingente que (seguindo o líder populista) se opõe às elites (contra as quais luta o líder populista).

A palavra ‘povo’ usada e abusada pelos populistas, tem origens suspeitíssimas. Hannah Arendt (c. 1950) nos seus fragmentos póstumos sobre o O que é política? escreveu:

“No caso dos romanos a política começou como política externa; portanto, exatamente com aquilo que, segundo o pensamento grego, estava situado fora de toda a política. Também para os romanos o âmbito político só podia surgir e existir dentro da coisa legal; mas esse âmbito surgia e se multiplicava ali onde diferentes povos se encontravam entre si. Esse encontro é guerreiro, e a palavra latina populus significava originalmente “mobilização para o exército” (Altheim), mas essa guerra não é o fim, porém o começo da política, ou seja, de um espaço político novo, surgido do tratado de paz e de aliança”.

Em geral diz-se que a palavra ‘democracia’ significa ‘poder do povo’. Mas o ‘demos’ – que compõe a palavra ‘democracia’: o poder (‘cratos’) do ‘demos’ – se referia originalmente aos distritos implantados a partir da reforma de Clístenes (508 a.C.). Sim, foi uma reforma distrital, que substitiu o poder do ‘genos‘ (os aglomerados das grandes famílias da aristocracia fundiária) pelo poder do ‘demos‘ (as novas circunscrições que agregavam pessoas por base territorial, sem ordem de filiação). Na democracia ateniense não havia esse conceito (populista) de ‘povo’ para designar a parte da população que vivia em piores condições socioeconômicas.

Na sua cerimônia de diplomação (em 12/12/2022) Lula afirmou. “A democracia só tem sentido, e será defendida pelo povo, na medida em que promover, de fato, a igualdade de direitos e oportunidades para todos e todas, independentemente de classe social, cor, crença religiosa ou orientação sexual”.

E na sua entrevista ao jornal El País (em 20/11/2021) Lula respondeu. “Os democratas precisam aprender que a democracia é uma coisa séria. O povo não quer uma democracia para gritar que está desempregado; ele quer trabalho. Não quer democracia para gritar que está com fome; quer comer. O povo não gosta da democracia para dizer que não tem possibilidade de estudar; ele tem que estudar. E a democracia precisa garantir esses direitos. Na verdade, a democracia falhou em muitos lugares”.

Nesta resposta encontramos o núcleo da concepção de democracia de Lula. Em outras palavras – e em síntese – ele disse que a democracia não faz sentido se o povo passa fome. É a concepção da esquerda, segundo a qual a igualdade (socioeconômica) é precondição para a liberdade (política). Ademais, Lula acha que a democracia tem o dever de dar “casa, comida e roupa lavada” para o povo. É uma concepção claramente populista (porque caberá a alguem dar isso para o povo: o líder populista).

A igualdade (ou a redução das desigualdades) é desejável, mas – como já foi dito acima – se a democracia dependesse disso não teria sido inventada numa economia (em parte) escravista, em Atenas, na passagem do século 6 para o século 5 a.C. Se as pessoas não tiverem a liberdade de empreender esforços individuais e coletivos para melhorar suas condições de vida, quem deveria fazer isso? A resposta é óbvia: o líder populista, preparado (por quem, por Deus?) para conduzir o povo em direção a uma condição em que, aí então, a democracia faria sentido.

Essa é uma discussão resolvida por Amartya Sen nos anos 70. Quando perguntado se alguns povos estavam ou não preparados para a democracia, ele respondeu que a pergunta não tinha sentido na medida em que todos os povos se preparam “através da democracia”. A democracia é meio e fim. No que tange à igualdade (ou à redução das desigualdades) o que a democracia faz é permitir (mudando os padrões de convivência social) que as pessoas – caminhando com suas próprias pernas – possam dispender esforços para melhorar as suas condições de vida.

Pior do que isso, entretanto, é interpretar a democracia como soberania popular. Imaginando que democracia seja, fundamentalmente, soberania popular, o populismo de esquerda faz um raciocínio simples, primário e incorreto: se nós somos os legítimos (ou mais legítimos) representantes do povo, o “verdadeiro povo” (the true people – composto pelos que seguem o líder), então nós somos a verdadeira democracia (traduzida como uma sociedade menos desigualitária e mais justa). Ou melhor, uma sociedade menos desigualitária e mais justa só poderá se estabelecer quando nós hegemonizarmos todos os processos da vida social, a começar pelas instituições estatais, passando pelos corporações sindicais e movimento sociais, até chegar às diversas formas primárias de sociabilidade.

Mas a democracia não é o poder de um (monarquia), dos melhores (aristocracia), de uma minoria (oligarquia), da maioria ou de todos (majoritarismo e tirania da maioria) e sim o poder de qualquer um. Como notou Jacques Rancière (2005), no seu magistral opusculo O ódio à democracia, isso quer dizer: “a indiferença das capacidades para ocupar as posições de governante ou de governado”.

Nas diretrizes redigidas pela direção do PT para o programa Lula (divulgadas em junho de 2022), a palavra soberania aparece 13 vezes (mais do que a palavra democracia – que, quando aparece, não raro vem junta com a palavra soberania).

Na cabeça de cada populista encontra-se o gérmen dessa ideia de raiz autocrática: a ideia de soberania. Entretanto, para a democracia nenhuma pessoa, nenhuma parcela da população (nem mesmo a abstração chamada ‘o povo’ para se referir aos mais pobres ou à maioria), nenhum governo, nenhum partido, podem ser soberanos. Só a lei (democraticamente aprovada) pode ser soberana.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan
2

Flávio declara R$ 8,1 milhões em bens à Justiça Eleitoral

Flávio declara R$ 8,1 milhões em bens à Justiça Eleitoral
3

Renan desafia Flávio a fazer “acareação” sobre filiação à Missão

Renan desafia Flávio a fazer “acareação” sobre filiação à Missão
4

Crusoé: PT debocha de filiação de Flávio à Missão

Crusoé: PT debocha de filiação de Flávio à Missão
5

Flávio Bolsonaro registra candidatura no TSE

Flávio Bolsonaro registra candidatura no TSE
6

Datafolha: Ciro lidera disputa pelo governo do Ceará com 52%

Datafolha: Ciro lidera disputa pelo governo do Ceará com 52%
7

Sigilo de fonte não é “escudo protetivo” para atividade ilícita, diz Moraes

Sigilo de fonte não é “escudo protetivo” para atividade ilícita, diz Moraes
8

O óbvio de Fachin sobre a liberdade de imprensa e o recado a Moraes

O óbvio de Fachin sobre a liberdade de imprensa e o recado a Moraes
9

Crusoé: Ex-ministra de Lula liga terremotos à “extrema-direita”

Crusoé: Ex-ministra de Lula liga terremotos à “extrema-direita”
10

Flávio diz que e-mails do Missão viraram “spam”

Flávio diz que e-mails do Missão viraram “spam”
1

Moraes violou sigilo da fonte para investigar crimes que dão até 2 anos de detenção cada

Moraes violou sigilo da fonte para investigar crimes que dão até 2 anos de detenção cada
2

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan

Lindbergh aciona PF e pede acareação de Flávio e Renan
3

O óbvio de Fachin sobre a liberdade de imprensa e o recado a Moraes

O óbvio de Fachin sobre a liberdade de imprensa e o recado a Moraes
4

Crusoé: MST escorrega no inglês ao pichar Embaixada dos EUA

Crusoé: MST escorrega no inglês ao pichar Embaixada dos EUA
5

Lula avalia timing para indicar Messias ao STF após reaproximação com Alcolumbre

Lula avalia timing para indicar Messias ao STF após reaproximação com Alcolumbre
6

Sigilo de fonte não é "escudo protetivo" para atividade ilícita, diz Moraes

Sigilo de fonte não é "escudo protetivo" para atividade ilícita, diz Moraes
7

Gilmar relativiza sigilo da fonte ao defender decisão de Moraes

Gilmar relativiza sigilo da fonte ao defender decisão de Moraes
8

EUA planejam ofensiva terrestre contra o narcotráfico

EUA planejam ofensiva terrestre contra o narcotráfico
9

Centrão não está neutro, diz Kassab

Centrão não está neutro, diz Kassab
10

Crusoé: Plano de Flávio mantém Bolsa Celular

Crusoé: Plano de Flávio mantém Bolsa Celular
1

Crusoé: O peso da corrupção

Crusoé: O peso da corrupção
2

Missão aciona TSE para investigar filiação de Flávio Bolsonaro

Missão aciona TSE para investigar filiação de Flávio Bolsonaro
3

Líder do governo celebra avanço da PEC da 6×1: “O diálogo produz resultados”

Líder do governo celebra avanço da PEC da 6×1: “O diálogo produz resultados”
4

Air fryer e micro-ondas fazem mal à saúde? Descubra o que diz a ciência

Air fryer e micro-ondas fazem mal à saúde? Descubra o que diz a ciência
5

Caminho de ajuste fiscal em 2027 começou a ser traçado nesta semana

Caminho de ajuste fiscal em 2027 começou a ser traçado nesta semana
6

Censura? Veja casos em que o STF interferiu na atividade jornalística

Censura? Veja casos em que o STF interferiu na atividade jornalística
7

Alcolumbre envia PEC do fim da 6×1 para a CCJ do Senado

Alcolumbre envia PEC do fim da 6×1 para a CCJ do Senado
8

CCJ do Senado aprova biometria para evitar troca de bebês em maternidades

CCJ do Senado aprova biometria para evitar troca de bebês em maternidades
9

Crusoé: “Eu não sou contra as pessoas estarem endividadas”, diz Lula

Crusoé: “Eu não sou contra as pessoas estarem endividadas”, diz Lula
10

Entenda como o fluxo intestinal e a conduta alimentar influenciam a saúde mental

Entenda como o fluxo intestinal e a conduta alimentar influenciam a saúde mental

Tags relacionadas

Augusto de Franco Diversidade esquerda governo Lula LGBT Luiz Inácio Lula da Silva pluralidade Populismo rampa
< Notícia Anterior

Irã executa mais dois manifestantes

07.01.2023 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Ministro confirma Correios fora do Programa de Desestatização

07.01.2023 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Augusto de Franco

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.