Por que não pode haver anistia

29.06.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista

Por que não pode haver anistia

avatar
Carlos Graieb
7 minutos de leitura 06.06.2024 14:13 comentários
Opinião

Por que não pode haver anistia

Julgamento anômalo no STF não pode ser motivo para livrar de qualquer punição quem quis roubar do país a democracia

avatar
Carlos Graieb
7 minutos de leitura 06.06.2024 14:13 comentários 0
Por que não pode haver anistia
Rodrigo Valadares | Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados

Começou a andar na Câmara um projeto de anistia para os condenados pelos atos do 8 de Janeiro. 

O relator é o deputado federal Rodrigo Valadares (foto/União-SE). 

Em entrevista à Folha de S. Paulo, ele disse ter a intenção de produzir “algo sóbrio, sólido e que tenha efeito”. Para isso, deseja estabelecer diálogo, inclusive, com o STF. “Não é nossa intenção fazer disso uma peça de ataque ao Supremo.”

Valadares também revelou ter conversado com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que haveria pedido explicitamente a exclusão de seu nome do projeto. 

Mas o deputado não negou que revogar a condenação de Bolsonaro à inelegibilidade está nos planos. “Quando chegar o momento oportuno, espero ser um agente para trabalhar nesse sentido”, disse ele. 

Segundo Valadares, Bolsonaro “assustou o sistema” e por isso há setores da sociedade que o perseguem. 

Roteiro do livramento

Façamos uma análise do roteiro desenhado na entrevista. 

A direita bolsonarista traçou uma estratégia de médio prazo, tendo as eleições presidenciais de 2026 como horizonte. 

O primeiro passo é libertar as “pessoas comuns” que foram presas por atenderem ao chamado para a “festa da Selma” – senha utilizada nas redes sociais e grupos de mensagem para a marcha sobre a Praça dos Três Poderes. 

Isso é tarefa que Valadares e seu grupo pretendem realizar fazendo articulações em Brasília. O líder do União Brasil na Câmara, Elmar Nascimento (BA), já se apresentou para construir pontes, inclusive com o Judiciário. Ele é candidato à sucessão de Arthur Lira (PP-AL) na presidência da Casa. 

Fases

Está correta a leitura de que beneficiar Bolsonaro logo de saída tornaria o movimento inviável politicamente. A luta pelos anônimos se tornaria um apêndice da luta para livrar a cara do mito e seria descredibilizada. 

Estrategicamente, é melhor construir a narrativa de que se busca fazer justiça, cancelando as penas altas aplicadas aos participantes do 8 de Janeiro, e só depois estender a benesse a Bolsonaro. 

Há também razões jurídicas para esperar. Ainda não se sabe a extensão exata dos problemas criminais de Bolsonaro. Ele provavelmente será denunciado ainda neste mês por crimes como a venda de jóias do acervo presidencial. 

Por esses motivos, tramar a anistia do ex-presidente deve vir num segundo momento. 

Razões para se opor à anistia

Acredito que pessoas que tenham uma única fibra democrática no seu organismo precisam se opor com energia a esse plano. 

Há muitas razões para isso. 

Bolsonaro tem dito que o Brasil já recorreu à anistia anteriormente. Fez isso num carro de som em São Paulo, no começo deste ano. Referia-se, com certeza, à anistia promulgada em 1979, no regime militar. Esse paralelo histórico é insustentável.

Para começar, porque naquele momento houve uma reconhecimento, mesmo que implícito, de que o recurso à violência extremada aconteceu dos dois lados: luta armada e terrorismo pela esquerda;  tortura e assassinato político pelo governo.

A anistia cancelou as penas de um lado e impediu que o outro fosse processado por qualquer tipo de crime. Hoje, não existe essa simetria.

A direita radical que pretendeu levar os tanques às ruas agrediu não apenas a esquerda com quem polariza, mas também os 30% do eleitorado que não se identificam religiosamente nem com Bolsonaro nem com Lula.

Demanda da minoria

Essa direita radical constitui uma minoria que desejou se impor pela força à maioria.

Querem agora um salvo-conduto, um presentão, mas o que oferecem em troca? Nada, muito menos a garantia de que não vão dar prosseguimento ao que começaram.

Pelo contrário: querem retomar a novela do ponto onde parou, devolvendo o líder do movimento à cena. Nem mesmo um ator substituto é tido como aceitável.

Um corolário do fato de que os criminosos punidos pelo 8 de Janeiro e por tudo que o cercou não agrediram somente aqueles que veem como inimigos – o STF, Lula etc. – mas também gente que espera viver na democracia, sem no entanto pertencer à esquerda e seitas adjacentes, é que não se pode conceber uma anistia costurada no escurinho de Brasília.

Aliás, a anistia de 1979 não foi costurada às pressas em gabinetes do Planalto. Veio depois de 15 anos de regime ditatorial, porque o espírito do tempo a demandava de maneira incontroversa, incontornável.

Crime de lesa majestade

Crime é crime, como a direita bolsonarista não se cansa de dizer. O Código Penal não tem delitos que sejam de verdade e outros que sejam de brincadeirinha.

Aliás, foi Bolsonaro quem sancionou a adição dos crimes de tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito ao nosso sistema jurídico, com as penas pesadas que eles têm. Tratá-los como coisa pouca é inaceitável.

No passado, crimes de lesa majestade eram vistos como os piores que se poderia cometer – um atentado à própria ordem natural.

Não vivemos mais num mundo de reis escolhidos por Deus (aleluia!), mas algo dessa lógica deve ser admitido hoje: crimes contra a democracia precisam ser vistos como graves e não como inconsequentes. 

Não há dúvida que Bolsonaro quis cooptar as Forças Armadas para uma ação que lhe permitisse continuar no poder. Conquistou, inclusive, o apoio de maus militares. Ele buscou uma virada de mesa, não foi apenas alguém que “assustou o sistema”.

Não há dúvida que os acampados em frente a quartéis e os participantes da “festa da Selma” tinham como objetivo final criar uma situação de impasse, que levasse os tanques às ruas, como em 1964. 

Dizer que tudo isso foi ação política legítima é fabulação.

Batalhas jurídicas

Concordo que o julgamento de milhares de pessoas no STF é uma anomalia. Torna-se improvável que a conduta de inúmeros acusados seja individualizada de forma adequada. Aumenta a chance de que penas desproporcionais sejam decretadas.

O remédio para isso, no entanto, não pode ser a completa ausência de punição, inclusive para aqueles que tinham de fato os piores intuitos criminosos. Esses não são coitadinhos do golpe.

Se a tropa de choque bolsonarista no Congresso quer uma bandeira, que comece no campo jurídico e lute pela modificação da dosimetria das penas.

Que lute até mesmo pela revisão criminal dos casos que já foram julgados. Teriam de fazer o STF mudar sua jurisprudência sobre esse dispositivo legal, a revisão criminal. Mas quem disse que a Corte não está pronta a dar essas guinadas, quando a conversa é bem conduzida nos bastidores? 

Não nego a ninguém o direito de ir à luta. Mas anistia pura e simples, não.

*****

PS: Obrigado, como sempre, a todos que leram o artigo e deixaram comentários. Vou concordar com Cesar de Oliveira: os julgamentos do STF são mais que uma anomalia. Lutar para que sejam levados à primeira instância ou simplesmente anulados é uma bandeira absolutamente legítima. Mas uma bandeira jurídica. Mesmo nesse caso, continuo discordando da manobra política representada pela anistia.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Família de zagueiro argentino é encontrada morta na Venezuela

Família de zagueiro argentino é encontrada morta na Venezuela
2

PM prende suspeitos de atentado contra tenente da Rota

PM prende suspeitos de atentado contra tenente da Rota
3

Prefeito chama Gusttavo Lima de “ladrão” após cancelamento de show

Prefeito chama Gusttavo Lima de “ladrão” após cancelamento de show
4

Deputada do PT relata agressão por segurança de Janja

Deputada do PT relata agressão por segurança de Janja
5

Jorginho Mello acusa Lula de xenofobia e decide acionar PGR

Jorginho Mello acusa Lula de xenofobia e decide acionar PGR
6

Perfis anônimos gastaram mais de R$ 1 milhão em ataques a Flávio e Tarcísio

Perfis anônimos gastaram mais de R$ 1 milhão em ataques a Flávio e Tarcísio
7

Câmara omitiu diárias de diretor-geral para viagem ao “Gilmarpalooza”

Câmara omitiu diárias de diretor-geral para viagem ao “Gilmarpalooza”
8

A dancinha de Alcolumbre em Parintins

A dancinha de Alcolumbre em Parintins
9

CazéTV responde ao Conar e diz que já adaptou anúncios de bets

CazéTV responde ao Conar e diz que já adaptou anúncios de bets
10

Valdemar sai em defesa de Flávio após crise com Michelle

Valdemar sai em defesa de Flávio após crise com Michelle
1

"Vou desmontar essa mentira", diz Jaques Wagner sobre caso Master

"Vou desmontar essa mentira", diz Jaques Wagner sobre caso Master
2

Irmão de Eloá, tenente da Rota é baleado na cabeça

Irmão de Eloá, tenente da Rota é baleado na cabeça
3

CBF proibe CazéTV de disputar direitos de transmissão da Copa do Brasil

CBF proibe CazéTV de disputar direitos de transmissão da Copa do Brasil
4

“Atenta contra toda a sociedade”, diz Tarcísio sobre ataque contra tenente da Rota

“Atenta contra toda a sociedade”, diz Tarcísio sobre ataque contra tenente da Rota
5

A dancinha de Alcolumbre em Parintins

A dancinha de Alcolumbre em Parintins
6

Flávio Bolsonaro reafirma preferência por vice "qualificada"

Flávio Bolsonaro reafirma preferência por vice "qualificada"
7

Itália prende brasileiro ligado a grupo neonazista

Itália prende brasileiro ligado a grupo neonazista
8

Deputada do PT relata agressão por segurança de Janja

Deputada do PT relata agressão por segurança de Janja
9

Eleitor fora da polarização entre Lula e Bolsonaro soma 27%, aponta Quaest

Eleitor fora da polarização entre Lula e Bolsonaro soma 27%, aponta Quaest
10

Câmara omitiu diárias de diretor-geral para viagem ao “Gilmarpalooza”

Câmara omitiu diárias de diretor-geral para viagem ao “Gilmarpalooza”
1

Valdemar sai em defesa de Flávio após crise com Michelle

Valdemar sai em defesa de Flávio após crise com Michelle
2

Prefeito chama Gusttavo Lima de “ladrão” após cancelamento de show

Prefeito chama Gusttavo Lima de “ladrão” após cancelamento de show
3

Almoço de domingo: 6 receitas de tortas e quiches de frango fáceis de fazer

Almoço de domingo: 6 receitas de tortas e quiches de frango fáceis de fazer
4

Família de zagueiro argentino é encontrada morta na Venezuela

Família de zagueiro argentino é encontrada morta na Venezuela
5

Terceira idade canina: 7 mudanças comportamentais de cachorros idosos 

Terceira idade canina: 7 mudanças comportamentais de cachorros idosos 
6

Irã pode “deixar de existir” se EUA aumentarem ataques, diz Trump

Irã pode “deixar de existir” se EUA aumentarem ataques, diz Trump
7

Acidente com avião de escola de paraquedismo deixa 11 mortos na França

Acidente com avião de escola de paraquedismo deixa 11 mortos na França
8

PM prende suspeitos de atentado contra tenente da Rota

PM prende suspeitos de atentado contra tenente da Rota
9

Câmara omitiu diárias de diretor-geral para viagem ao “Gilmarpalooza”

Câmara omitiu diárias de diretor-geral para viagem ao “Gilmarpalooza”
10

A dancinha de Alcolumbre em Parintins

A dancinha de Alcolumbre em Parintins

Tags relacionadas

8 de janeiro anistia bolsonarismo Câmara dos Deputados Elmar Nascimento Rodrigo Valadares STF tentativa de golpe
< Notícia Anterior

Concurso SAAE Capivari: vagas com remuneração de até R$ 7.3 mil

06.06.2024 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Gabigol e seu Harém de 100 mulheres

06.06.2024 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Icone casa

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.