Rita ri por último

26.06.2026

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Rogério Ortega
4 minutos de leitura 09.05.2023 17:10 comentários
Opinião

Rita ri por último

Meu primeiro contato com Rita Lee — e, imagino, o de milhões de pessoas que entraram na adolescência nos anos 1980 — foi “Mania de Você”, estourada nas rádios de todo o Brasil em 1979.

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Rogério Ortega
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Rita ri por último
Foto: Divulgação

Meu primeiro contato com Rita Lee — e, imagino, o de milhões de pessoas que entraram na adolescência nos anos 1980 — foi “Mania de Você”, estourada nas rádios de todo o país em 1979. Não havia, no ar do Brasil daqueles tempos, nada mais sensual que versos como “meu bem, você me dá água na boca/ vestindo fantasias, tirando a roupa” — pelo menos, nenhuma música que tivesse sido composta e cantada por uma mulher.

No ano seguinte, quando a Globo levou ao ar seu TV Mulher, coube a Rita escrever a música-tema do programa, “Cor-de-Rosa Choque”, incluindo o que terá sido a primeira referência explícita à menstruação na história da MPB (“mulher é bicho esquisito, todo mês sangra”). O sucesso foi enorme. Eram os anos da abertura política, e as centenas de milhares de discos vendidos comprovavam: havia um público grande e ansioso pela liberdade e pela alegria que as letras e a própria persona de Rita Lee Jones — que morreu em São Paulo nesta terça (9), aos 75 — sempre transmitiram.

Aos poucos, fui conhecendo o muito que Rita já havia feito antes do sucesso radiofônico da parceria com o marido, Roberto de Carvalho. Adolescente nos anos 1960, ela já estava lá, no olho do furacão do tropicalismo, como vocalista dos Mutantes, o melhor e mais reconhecido internacionalmente entre os grupos de rock brasileiros. Ela estava lá, ao lado de Gilberto Gil, cantando “Domingo no Parque” no festival da Record em 1967; estava lá também quando Caetano Veloso fez seu célebre discurso contra a esquerda estudantil na apresentação de “É Proibido Proibir” no Tuca, em 1968. Não teria havido Tropicália sem a liberdade e a anarquia dos Mutantes, coisa que os próprios Caetano e Gil reconhecem.

Depois de cinco álbuns excepcionais, Rita “foi saída” dos Mutantes — que, sem sua criatividade pop e sem a loucura de seu ex-companheiro Arnaldo Baptista, viraram uma banda de rock progressivo brasileiro como dezenas de outras. Ela reemergiria como líder de um grupo de roqueiros paulistanos de ascendência italiana, o Tutti Frutti: o segundo álbum da banda, “Fruto Proibido”, de 1975, traz alguns de seus maiores clássicos, como “Agora Só Falta Você”, “Esse Tal de Roque Enrow” (parceria com Paulo Coelho, antes de ele ser promovido a mago) e principalmente “Ovelha Negra”, que talvez seja seu melhor autorretrato: uma canção pop com a qual milhões de “ovelhas negras” se identificam até hoje.

Rita faria ainda muita coisa depois do casamento e da parceria com Roberto, dentro e fora do mundo da música: participou do movimento pelas Diretas Já, escreveu livros, engajou-se em campanhas de proteção aos animais, foi uma das participantes do Saia Justa (na melhor fase do programa, comandada por Mônica Waldvogel). E continuou rindo de tudo, inclusive de si mesma: homenageada por Caetano Veloso na letra de “Sampa”, respondeu em entrevista algo como “não sei se o Caetano traduziu direito, mas a ‘mais completa tradução’ de São Paulo não sai de casa”. Ela assumiria, não sem autoironia, o título de “Santa Rita de Sampa”, que batizou um dos seus discos; também afirmava, modestamente, que preferia ser chamada de “padroeira da liberdade”, não “rainha do rock brasileiro”, descrição que achava (com razão) cafona.

Não pode haver clichê maior do que associar os termos “Rita Lee” e “irreverência”; também não há como negar que uma foto dela seria a melhor ilustração desse verbete em qualquer dicionário. E não há quem se equipare a ela como mulher mais importante do rock e do pop brasileiros: Rita já era o próprio girl power, empoderada, décadas antes de esses termos surgirem e virarem moda. Em uma de suas autobiografias — sim, ela lançou duas —, Rita disse que chegaria ao céu cantando “thank you, Lord, finally sedated” (obrigada, Senhor, finalmente sedada) e escreveu o próprio epitáfio: “Ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa”.

Foi muito mais que gente boa. Rita ri por último, e viverá para sempre.

 

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Rogério Ortega

Rogério Ortega, formado em jornalismo pela USP, trabalhou na Folha de S.Paulo por 26 anos. Foi editor da seção Tendências/Debates, chefe do Programa de Qualidade, redator da Primeira Página e coordenador de reportagens especiais do caderno Mundo, entre outras funções. É um dos culpados pela edição de 2001 do Manual da Redação do jornal, que vigorou até 2018. Juntou-se à equipe d'O Antagonista em agosto de 2017. É também colunista de Crusoé, onde escreve sob o nome de Ruy Goiaba, seu alter ego desde 2001.

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